O registro de uma raça: da ovelha crioula à homologação da Raça Ovina Crioula |
Clara M.S.L.Vaz
Gilson R.P. Moreira
Jane E.M.de A. Caon
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Poucos conhecem a história transcorrida desde os primeiros trabalhos até o reconhecimento da raça Ovina Crioula. O registro de uma raça não é tão simples como parece. No nosso caso, muitas propostas foram enviadas neste sentido ao Ministério da Agricultura, Pecuária e do Abastecimento (MAPA), pela Embrapa, até que todas as instituições interessadas conduzissem o processo, em conjunto. Ao nosso ver, o encaminhamento, organizado desta forma, com a cooperação mútua das diversas instituições interessadas, foi fundamental para sensibilizar as autoridades correspondentes, quanto ao mérito da iniciativa (principalmente quanto à aptidão da raça), bem como para satisfazer os requisitos previstos na legislação relativa ao reconhecimento de raças autóctones brasileiras.
O passo inicial foi a avaliação produtiva dos animais, obtida através de dados coletados durante 19 anos pela Embrapa Pecuária Sul (desde 1982), bem como a caracterização morfológica de aproximadamente 4000 animais do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Em adição, os criadores cadastrados, em número de 23, participaram do acompanhamento e da avaliação de seus rebanhos, além de responderem a um questionário para avaliação dos aspectos sócio-econômico e do uso da ovelha crioula.
Alguns anos após, com a criação da ABCOC (1999) e a organização dos criadores, foi dado uma nova dimensão para o registro. Deste período até a sua homologação, transcorreram dois anos de intensas atividades. Para isso, destaca-se a formação de duas comissões técnicas. A primeira, para elaborar o padrão racial, com representantes da ABCOC, ARCO e Embrapa - respectivamente, Gilson Rudinei Pires Moreira, Francisco Perelló Medeiros e Clara Marineli Silveira Luiz Vaz, com base na revisão de literatura e estudos da morfologia de 1832 ovinos crioulos de diferentes criatórios, parceiros da Embrapa Pecuária Sul. O padrão correspondente, relação dos rebanhos e criadores, ata de fundação e estatutos da ABCOC, bem como farto número de fotografias a respeito, resultaram num processo submetido pela ABCOC ao MAPA, em 2000, solicitando o reconhecimento oficial da raça. Tal iniciativa foi apoiada pessoalmente, por diretores ou representantes de diversas entidades do setor rural do RS, em audiência concedida à Diretoria da ABCOC pelo Senhor Ministro da Agricultura e do Abastecimento, na época, Marcus Vinicius Pratini de Moraes.
Assim, a segunda comissão, requerida pelo Departamento de Fiscalizão e Fomento da Produção Animal do MAPA (Ofício 156/2000) objetivou verificar “in loco” as características raciais, o efetivo populacional do rebanho e a sua importância econômica em propriedades, sorteadas ao acaso (Rio Grande do Sul e Santa Catarina), para emitir o relatório conclusivo para aprovação da Raça Ovina Crioula e a respectiva abertura do Livro de Registro Genealógico. Esta foi composta pelo diretor técnico da ARCO, Francisco Perelló Medeiros, pela pesquisadora e curadora do Banco de Germoplasma de Ovelha Crioula Lanada da Embrapa, Clara Marineli Silveira Luiz Vaz e técnicos da Delegacia do MAPA / RS, Geanete Hernandorena Gigena e Roberto Vittola. A ABCOC, embora tenha sido convidada a participar, declinou, por questões éticas, visto que constituía-se oficialmente na Instituição solicitante de tal reconhecimento. O parecer técnico emitido através do relatório conclusivo desta comissão foi assim resumido, o que evidencia a importância produtiva da raça ovina Crioula:
“À observação, os rebanhos apresentaram boa definição racial, o que é evidenciado desde o nascimento das crias; capacidade reprodutiva, elevado índice de natalidade e de sobrevivência, haja visto a ocorrência de, no mínimo, um cordeiro para cada ovelha vistoriada, o que atesta a rusticidade da raça.
Encontramos um sistema de produção com venda anual de cordeiros, nas idades de quatro a seis meses, sendo a carne e a pele comercializadas mediante contrato prévio para nichos de mercado. Nesse sistema, os carneiros permanecem no rebanho todo ano, sendo comum as ovelhas produzirem dois partos anuais. Esse manejo é adotado pela maioria dos criadores do norte do Rio Grande do Sul, que mantêm os cordeiros de abate ao abrigo do sol, em currais dentro das matas de encostas, o que garante a produção de pelegos e velos com cor preta, em tons acentuados, para atender demandas do artesanato.”
Com base neste parecer, e considerando o processo correspondente como “devidamente instruído”, a portaria de reconhecimento da raça foi assinada e finalmente publicada no Diário Oficial da União, em 2001, que em resumo, resolve:
"Art. 1o Reconhecer como raça os ovinos do ecótipo Crioulo.
Art. 2o Conceder autorização à Associação Brasileira de Criadores de Ovinos – ARCO, ... para efetuar o registro genealógico do ovino Crioulo..."
Dessa forma, o processo completo, do resgate dos rebanhos remanescentes ao reconhecimento oficial da Raça Ovina Crioula, se estendeu por aproximadamente 20 anos. Está nele contido, direta ou indiretamente, o trabalho persistente de diversos ovinocultores, técnicos e administradores do setor público e privado, e de entidades associativas do setor rural, governamen-tais ou não. Dentre os primeiros, situam-se Danilo Pombo, João Silveira Luiz e Maurício Costa (RS), e Antônio Camargo (SC), que forneceram os primeiros animais para a implantação do núcleo de criação da Embrapa Pecuária Sul. Cabe lembrar, porém, que a ARCO iniciou o Registro Genealógico Brasileiro correspondente com animais cujos pais não tinham sido por ela identificados/tatuados (RGBbase), o que não poderia ser diferente. Dessa forma, a Raça encontra-se ainda em fase de formação, com acréscimo numérico progressivo dos rebanhos acompanhados. Alguns destes já possuem animais de origem conhecida por três gerações (RGB), com vistas ao recebimento futuro (5a geração acompanhada) do status puro de origem (PO). |
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História 
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Padrão Racial da Ovelha Crioula 
Clara M.S.L. Vaz, Francisco Perelló Medeiros, Gilson R.P. Moreira
Aspecto geral: A Ovelha Crioula têm como características a cara e as extremidades descobertas e velo formado por mechas de aspecto cônico, de coloração variando do branco ao preto, incluindo tons intermediários. O velo se abre na linha dorso-lombar, caindo lateralmente ao corpo, como uma capa, o que contrasta com a escassa cobertura ventral. Possui tamanho médio, quando comparada às demais raças ovinas brasileiras. São animais altivos, com acentuado comportamento gregário e aguçado instinto de defesa, porém são de fácil manejo.
Aptidão: Produção de lã para artesanato e tapeçaria industrial (carpet wool). Carne magra, com maciez e sabor diferenciados. Pele de qualidade industrial superior, no que tange à resistência e suavidade. Dada a variedade natural de cores e acentuado comprimento de mecha, os pelegos tem demanda popular.
Adaptação: É rústica e sóbria, adaptando-se a diferentes condições de clima, solo e vegetação. Sobressai-se na espécie quanto à resistência a endoparasitas e problemas podais, quando em condições adversas.
Reprodução: Tem puberdade precoce; as borregas aos sete e, os machos, a partir dos quatro meses, em condições naturais de criação. Geralmente, o número de cordeiros desmamados é alto, devido ao elevado vigor destes e habilidade materna. Destaca-se ainda pela longevidade.
Características fenotípicas
Cabeça: Tamanho propor-cional ao corpo, longilínea; perfil reto ou semi-convexo, sendo este mais acentuado nos machos. Espaço inter-fossas nasais, lábios e conjuntivas parcial ou totalmente pigmentados, sendo raramente despigmentados. Nos machos freqüentemente se observa um acúmulo de gordura de reserva na nuca. As orelhas podem ser pequenas e inseridas horizontalmente, de tamanho mediano e ligeira inclinação
ou grandes e pendentes, conforme sua origem Fronteira e Comum, Serrana ou Zebua. Pode ser aspada ou mocha. O macho, quando aspado, apresenta um par de chifres de secção triangular, que se abre lateralmente à face. Quando da existência de mais de um par (policerismo), os quais são todos de secção cilíndrica, o superior apresenta-se ereto e, o inferior, curvado em direção à face. As fêmeas, quando aspadas, apresentam chifres de tamanho relativamente menor. Os chifres podem ser pigmentados ou não, rugosos ou lisos. Olhos vivos, podendo possuir a pálpebra superior partida. Os animais desprovidos de chifres podem apresentar topete, formado por mechas longas que cobrem os olhos e o chanfro. Face coberta por pelos lustrosos, de variada coloração.
Pescoço: Delgado, cilíndrico, de tamanho proporcional ao corpo, sendo inserido em posição baixa em relação às cruzes, mantendo a cabeça elevada em relação à linha de lombo.
Tronco: Peito estreito e deprimido; corpo mais desenvolvido na parte posterior e estreito na região das paletas. Linha dorso lombar reta, com ligeira inclinação em direção às cruzes, algo salientes. Garupa curta, com pouca inclinação e geralmente angulosa.
Membros: Bem apruma-dos, delgados, porém fortes, cascos podendo ser escuros ou claros. Os pos-teriores podem ser algo fechados e cobertos por lanilha até a quartela. Existe uma variedade enorme de tons dos pêlos que revestem os membros, desde uma coloração uniforme (branca, preta, castanha ou ocre), até manchas e pintas diversas, sendo comum nos animais de tons escuros uma cinta branca em um ou mais membros.
Cauda: Delgada, permitindo a palpação das vértebras, mesmo quando gorda.
Escroto: Tamanho discreto, com perímetro variando de 20 a 26 cm para borregos e em torno de 35 cm para carneiros.
Mamas: Bem desenvolvidas, podendo ocorrer mamilos suplementares.
Velo: Pode ser formado por dois tipos de fibra. Um tipo constituído por mechas cônicas e longas, com pouca densidade e diâmetro muito variável, lisas ou discre-tamente onduladas. Junto à pele pode ocorrer uma camada de lã, composta de fibras mais finas e curtas, com muitas ondulações irregulares, também denominada lanilha. É de toque que varia de áspero a moderadamente suave, sen-do pobre em suarda e leve (1,2 a 2,5 kg). A cor pode variar do branco ao preto, incluindo diversos tons intermediários, como por exemplo, amarelo, cinza, marrom, ocre e grisalho, e todas combinações pos-síveis destas. Independente da cor, pode apresentar-se manchado, com faixas ou com bandas diferentes na mecha (aguti).
Os cordeiros geralmente apresentam a lã encara-colada e garreio, o que deve desaparecer após a primeira tosquia, quando a cor da lã destes também pode mudar.
Defeitos eliminatórios: Desvios de coluna (cifose, lordose e escoliose), malformações mandibulares (prognatismo, retrognatismo, agnatismo e desvio lateral), perfil ultraconvexo, defeitos genitais (criptorquidia, hipo-plasia, monorquidismo, assi-metria testicular), garupa muito inclinada, cauda larga, excesso de cobertura de lã na face e nos membros dianteiros. A desuniformidade acentuada de finura da lã entre as diferentes partes do corpo é caráter eliminatório.
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Proposta apresentada pelos autores e reconhecida pelo Ministério da Agricultura (Processo 21.042. 002644/2000-24; Por-taria No. 38, de 10/01/2001)
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